ARLANÇÃO PODE SIM
(crónica breve, com humor e amor)
Entrei na Conservatória com o nome certo nos lábios:
Vinicius.
Soava-me a poema, a filho, a futuro.
Mas a senhora do registo, de régua e compasso no coração, disse-me:
— Não pode.
Não pode?!
O nome que cresceu comigo, que ouvi ao deitar, que me encheu o ventre e os olhos?
— Não pode, repetiu, como quem diz que o céu é quadrado.
E eu, já com o sangue a ferver, larguei o disparate:
— Se calhar, se o nome for ARLANÇÃO, pode ser!
A senhora não tremeu.
Abriu o livro dos registos.
Percorreu com o dedo, linha a linha, como se procurasse um milagre.
Olhou-me nos olhos.
Séria. Solene.
E disse:
— ARLANÇÃO pode sim.
Saí de lá com Vinicio nos papéis.
Mas na alma, meu filho, sempre foste e serás Vinicius.
Mesmo que o mundo todo diga Arlanção.
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