Sete às Oito
Sete às Oito
Poema verídico
Um dia, com voz baixa e serena,
convidou-me a conhecer a sua casa.
Fui.
Levava no peito um poema,
e nos olhos, uma brasa.
Bebemos chá em chávenas gastas,
e rimos sem grandes promessas.
Falámos de filhos, de perdas,
de vidas presas por peças.
Ali, no refúgio discreto,
entre cortinas caladas e luz suave,
nasceu um pacto secreto
que o mundo jamais sabe.
Das sete às oito, era nosso o tempo —
só uma hora por dia, sem exagero.
Mas nesse curto alento
Caberia o amor inteiro.
Não havia juras, nem planos,
só o calor de uma mão sobre a outra.
E um silêncio entre humanos
que a alma escuta e anota.
A partir daí, tornou-se um vício —
a espera, a fuga, o abrigo, o feitiço.
Corremos um para o outro, sem palavras,
como se o mundo inteiro fosse de lava.
Aquela hora era de loucura crua,
pele com pele, sede sem cura,
um riso preso entre beijos urgentes,
um querer mais que nos tornava ardentes.
As paredes guardavam os nossos segredos,
os móveis aprendiam os nossos medos,
e no chá, deixávamos esquecidos
os nomes reais dos nossos compromissos.
Sete às oito — tempo suspenso,
sem ontem, nem depois, só o intenso.
Era o nosso vício mais delicado,
um amor fora do mundo, mas sagrado.
Sagrado... podes crer.
Não pelo altar,
mas pela entrega sem fingir,
pelo jeito de morrer e renascer
naquele breve existir.
Fazíamos amor a sussurrar,
com o terço a tocar no andar de baixo.
Para a vizinha não desconfiar,
nossos gemidos viravam despacho.
Cada conta do rosário
marcava um beijo ou um arrepio.
Enquanto ela rezava o mistério,
nós ardíamos num desafio.
E havia algo de fé naquele jogo —
não fé nos céus, mas um no outro.
No corpo que salvava sem dogma,
na pele que rezava sem ouro.
Durou mais de um ano,
um amor em silêncio bem medido,
como um relógio antigo
que só se ouve se estás mesmo atento.
Nunca saímos juntos —
nenhum gesto que traísse,
só olhares,
e o toque breve de quem já disse
tudo no corpo,
e cala no rosto o que sente.
Um dia, a subir a escada com cuidado,
a porta do rés-do-chão rangeu.
A velhinha sorriu, terço na mão,
e disse com voz doce e fiel:
— Vem ouvir o terço, menina,
faltam três minutos.
Ele hoje chegou um bocadinho mais cedo...
É a hora do terço.
Fiquei suspensa.
O coração tropeçou nas palavras.
Sorri, sem culpa, mas com a alma nua,
como quem descobre que até a fé
tem ouvidos nas paredes da rua.
E ainda hoje me pergunto,
sem saber a resposta encantada:
Será que estou excomungada...
ou apenas fui abençoada?
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